Crianças que não brincam na natureza não se preocupam em protegê-la
“Ah, mas eu não sou racista, homofóbico e machista. A
Regina (negra, doméstica) é como da família. Eu até tenho um amigo gay, no
trabalho. Em casa ajudo minha mulher nas tarefas, apesar da TPM dela ser
infernal hihihihihihihi. Trato eles como trato todo mundo”.
Cara, parabéns por você não ser preconceituoso. Eu sou
muito mais racista, homofóbico e machista do que imaginava. Para mim,
infelizmente, ainda é difícil perceber o quanto sou beneficiado por ser branco
e como tiro proveito disso diariamente. Na minha última vez em um estádio de
futebol, me vigiei duas ou três vezes para não ofender um ou outro jogador com
o termo pejorativo “viado”. Demorei entender que o patriarcado coloca a mulher
em um plano inferior e submisso.
Quantos amigos negros, homossexuais e mulheres eu tenho?
Negros – Entendi que a escola particular e a faculdade
que estudei eram seletivas. Apenas quem tinha dinheiro poderia pagar por elas.
O negro não trabalha? O negro não ganha dinheiro? O negro não gosta de escolas
particulares?
Homossexuais – O que meus amigos (aqueles, da escola
particular) iriam pensar de mim se me vissem conversando com um gay? Seria
muito difícil aguentar as brincadeiras.
Mulheres – Meninos na fila de cor azul e meninas na fila
de cor rosa (lembra-se da escola particular?).
Por muito tempo acreditei que não era preconceituoso. Por
muito tempo não percebi o quanto sou opressor só por ser branco. Por muito
tempo adotei a queridinha máxima do homem branco: Meritocracia. Se quiser, faça
por merecer. Ou pior ainda, ema ema ema cada um com seus problemas.
Qualquer criança sabe que meritocracia só existe com
direitos iguais. Assim como qualquer adulto em sã consciência sabe que o
egocentrismo é a pior doença que existe.
Crianças que não brincam na natureza não se preocupam em
protegê-la, diz um artigo que li esses dias. De acordo com o jornal, as
crianças que não brincam ao ar livre, que têm contato com a natureza, não irão
se preocupar em protegê-la. Afinal, só protegemos aquilo que amamos, e amamos
aquilo (ou aqueles) com os quais convivemos. O artigo ainda alerta para que
alguns hábitos sejam mudados, principalmente por conta da saúde dos pequenos.
Minha falta de contato com negros, homossexuais e
mulheres me fez mal. Tornei-me um racista, homofóbico e machista. A negação só
piora o encontro com a realidade. Acredito que reconhecer que tenho a doença do
preconceito é o primeiro passo para uma desconstrução histórica, que vai durar
toda minha vida.
Entendo que meu lugar não é o de protagonista na luta
contra o racismo, homofobia e machismo. Na verdade, não descobri ainda qual é o
meu papel nessa história. Por enquanto será aqui, entre os “não
preconceituosos” e os negros, homossexuais e mulheres.
Ps.: Logo após o título, eu coloquei meu nome como se o
artigo fosse de minha autoria. Não é. Ele pertence aos negros, homossexuais e
mulheres, ativistas ou não, que de alguma forma me ajudaram, direta ou
indiretamente, a atingir essa recém-nascida sanidade.
"Tudo aquilo que sabemos está sujeito a ser revisto,
especialmente aquilo que sabemos sobre a verdade." Autor desconhecido.
“Eu não faço parte de nenhuma conspiração, sou apenas um
zé ninguém. Não me chame de branco! Representa tudo que eu odeio”, retirado da
música Don´t call me white, do NOFX.
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